Capítulo 1

A Faca

A 28 de janeiro de 2026, um corredor de vento de 30 quilómetros cortou o centro de Portugal entre as 3 e as 6 da manhã.
Chamam-lhe sting jet — uma lâmina de ar que desce da retaguarda de um ciclone e acelera até destruir o que encontra. Apenas 5 estações meteorológicas registaram o que aconteceu.

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O que é um sting jet

Um ciclone normal empurra o ar para a frente. Um sting jet puxa ar seco de altitude — a 3 ou 4 km — e acelera-o para baixo, comprimindo-o contra o solo numa faixa de cerca de 30 quilómetros.

Diagrama de um sting jet: ar descendente da retaguarda de um ciclone extratropical atinge o solo numa faixa estreita
Mecanismo de um sting jet. O ar desce da retaguarda do ciclone e acelera até ao solo.

Dura menos de uma hora. Mas nessa faixa, o vento chega ao dobro ou triplo do que os modelos meteorológicos preveem. É o equivalente a um furacão a aterrar numa autoestrada — sem aviso, sem nome, sem categoria.

Radar de refletividade IPMA — Kristin, 05:10 UTC
Refletividade radar, 05:10 UTC. A banda de precipitação intensa sobre Leiria. Fonte: IPMA

Os modelos globais trabalham a 25 km de resolução. Um sting jet tem ~30 km de largura. Simplesmente não cabe na grelha. Por isso nenhum modelo global consegue vê-lo antes de acontecer.

Velocidade Doppler IPMA — Kristin, 05:07 UTC
Velocidade Doppler, 05:07 UTC. A mancha azul sobre Monte Real indica vento extremo a aproximar-se do radar. Fonte: IPMA

Uma madrugada bastou

6+
Mortos

Vítimas mortais diretamente atribuídas à tempestade Kristin.

~1M
Sem eletricidade

Consumidores sem energia no pico da madrugada de 28 de janeiro.

€4 mil milhões
Danos estimados

Cerca de 1% do PIB ao longo de sete tempestades em dois meses.


Uma tempestade normal, com uma faca escondida

Para a maior parte de Portugal, a Kristin foi uma tempestade de inverno. Para as pessoas neste corredor de 30 km, foi um desastre sem precedentes.

30 minutos no Apocalipse.

Foi o tempo que a lâmina se fez sentir. Trinta minutos entre o ar começar a descer e o anemómetro de Monte Real partir-se.

O que acontece a quem está dentro?

Capítulo 2