Capítulo 2

30 Minutos

Uma tempestade normal dura horas. O sting jet durou 30 minutos.


A força do vento

A força destrutiva do vento é proporcional ao quadrado da velocidade.

← Velocidade
Força destrutiva →
60 km/h
Difícil andar, guarda-chuvas partem
90 km/h
Carros e carrinhas começam a perder controlo
120 km/h
Árvores tombam, quedas de energia locais
140 km/h
Telhados começam a levantar, carros viram. Este foi número previsto no aviso
178 km/h
Estruturas metálicas como postes de eletricidade e torres de telecomunicações começam a ceder
200+ km/h
Pinheiros partem a meio do tronco

A diferença entre 140 e 178 não é 27%. É 62% mais energia destrutiva. Olha para as barras da direita: a 140 km/h, metade da barra. A 178, quase 90%. Não é “um pouco pior”. É uma catástrofe diferente.


Pior que um furacão, sem aviso de furacão

178 km/h é vento mais forte do que o furacão Sandy produziu quando paralisou Nova Iorque.

Com aviso e preparação
Sandy (2012, EUA)
Vento médio de 146 km/h em Atlantic City, New Jersey. Rastreado durante 5 dias. 375 mil pessoas evacuadas. $70 mil milhões em danos. Toda a gente sabia que estava a chegar.
Sem aviso suficiente
Sting jet da Kristin (2026)
Último registo instrumental em Monte Real: 178 km/h. Leiria chegou a 156 km/h em cerca de 30 minutos. O aviso operacional, dado na manhã do dia, era de 140 km/h.

Destruição repentina

Na estação de Leiria (aeródromo), o vento estava a cerca de 60 km/h. Forte, mas suportável. Trinta minutos depois, registou 156 km/h — às 05:20 UTC de 28 de janeiro. Trinta minutos depois disso, estava de volta aos 60.

Intensidade do ventoTempo156 km/hTempestade normalSting jet

Uma tempestade normal dá tempo para reagir. Aqui, não. O vento sobe quase em parede, bate no máximo e desaparece.

Não foi uma noite inteira de vento forte. Foram minutos de violência extrema.


Quando o número acaba, entram as marcas

05:00 UTC176 km/h
05:0X UTC178 km/h
05:XX UTCinstrumento destruído

178 não é o pico.
É o último número antes do sensor ser destruído pelo vento que estava a medir.

“A interação entre os escoamentos atmosféricos e a orografia não permite excluir a possibilidade de que vento com magnitude superior à observada possa ter ocorrido noutros locais.”

— IPMA, Nota Técnica, janeiro 2026

As medições são o chão, não o teto.

A partir daqui, a leitura passa para o terreno: no distrito de Leiria houve relatos de centenas de pinheiros arrancados ou partidos. Em vários troços, o padrão visível foi fratura do tronco. Exige ventos muito mais fortes do que aqueles que tombam árvores pela raiz.

Pinhal de Leiria após a tempestade, com árvores partidas e pilar metálico de comunicações derrubado
Pinhal de Leiria após a tempestade Kristin: árvores danificadas e pilar de comunicações derrubado. Foto: Carlos Barroso/Lusa.

Cenário de guerra

O corredor passou em cima da Marinha Grande. O autarca disse que foi um "cenário de guerra". 75 pessoas em abrigos. Dias sem água, sem luz, sem comunicações. Uma casa do parque de campismo da Praia da Vieira apareceu no meio da estrada. Nenhum bar ou restaurante escapou ileso.

E a Kristin não foi um caso único. Dez dias depois, a tempestade Marta voltou a atingir Portugal. Antes disso, a Ingrid, a Joseph, a Leonardo. Sete tempestades em dois meses. Um sting jet pode formar-se em qualquer uma delas.

Trinta quilómetros de largura. Trinta minutos de duração. E zero capacidade de prever onde vai cair.

Da próxima vez pode ser na tua rua.

A Ameaça Invisível

Sandy foi previsto com 5 dias de antecedência. O sting jet da Kristin não.

Porquê?

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